INSTRUMENTO DA MEMÓRIA.







A falta de apego ao que já se foi me trouxe o esquecimento.
E me incomodo muito por não falar imediatamente disto.
Mas sei que vivi, só não me lembro exatamente como.

E que seja golpe de sorte a lembrança, além da coragem.
Sob muito lençol espero que tudo aconteça e reaconteça.
O certo está nas páginas de um álbum que conte minha história.

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São quatro os cantos do quarto e de todos eles posso me ver.
Mas essa é a primeira vez que venho aqui, para me deixar acompanhado.
E se posso me ver fora de mim, certeza que não estou acordado.

É sol da manhã? É maldição para quem chegou na Terra esta tarde.
Muito confuso foi, principalmente os temas - juro que só lembro metade.
Se houver um bocado de espaço no tempo para mim, quero me deitar novamente.

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Tentei acabar com o final, mas alguém errou.
E novas histórias surgiram sem justo motivo, mas para ela havia.
Estou escrevendo, apagando, borrando... estou perdido demais para ser salvo?

Preciso despejar as respostas de dentro de mim para fora da mente.
Ouço a respiração de todas as pessoas e invento não estar só.
Se houver um herói para o dia de hoje, que aja agora.

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Apesar da chatice, me restam uns poucos dentes de humor.
certo que alguns estão dependurados, ou sujos de cafeína.
Mas ainda posso fazer morrer de rir com aquela do esqueleto... conhece?

E se faltar alguma coisa no dia de hoje, ótimo: melhoro a piada amanhã.
Mas talvez eu acorde doente demais para dançar o samba do crioulo doido.
No final das contas, devo ter mijado em mim mesmo.

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Descobri que o maior empecilho da humanidade é a distância.
E o tempo não nos ajuda a chegar com a mesma razão da partida.
E meu ser humano não sabe trazer para si ao invés de ir buscar.

E espaço me deixa tão impaciente que começo a conceder segredos.
E terríveis dores nas costas me consomem a idade ainda nova.
E ainda bem que ficar invisível é dom de quem não sabe de onde veio.

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Vi as fotos de ontem como se hoje fosse daqui trinta anos.
E daqui esses tantos, serão todas as semanas como esta.
Em que me sinto vazio de tudo, por tão triste, até morrer.

Venha aqui costurar meus pensamentos com desculpas.
Porque você deve lembrar o dia feliz que deverá ser o amanhã.
E eu manter aquilo que prometo porque sou juramento.

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Quando o defeito emergiu das mãos como fumaça, fiquei desorientado.
E quem me olhava perdeu-se em constrangimento, vergonha, culpa.
E senti uma lágrima seca me rasgar do rosto até o coração - de terror.

Reconheço na ameaça a covardia da incompreensão e do egoísmo.
Não me falta sinceridade e amor para suportar o insuportável.
Mas quero livrá-la do buquê de papéis finos que tanto me incomoda.

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