SE ESTA NOITE VOCÊ DESCOBRIR....

...o tempo que levei de você, por não ser uma pessoa sábia, é porque não sobrevivi assim que nasceu de mim um amor incontrolável - mas esta é só uma bela desculpa.

E se me confundi com um ladrão simples - que de medo correu dos crimes de elite - alegando que estava preparado para só abrir as janelas, era mesmo porque queria que a luz entrasse, mas demorei-me demais pensando de que maneira melhor seria abrir a tranca sem despedaçá-la.

Eu senti um vento sujo, arrastando nos nossos encontros um pó que só se podia sentir respirando. E por perder o fôlego me abaixei para procurar a saída no vão fundo das pegadas dos que por aqui entraram e se foram vivos.

Não queria que você se lembrasse de mim quando fui embora porque naquele momento eu estava sinceramente bonito. Não me faltou um pingo de verdade quando comecei a descer as escadas e achar ruim ter que abrir a porta só. Senti o real efeito da falta de uma música para encerrar o momento e me arrepender de saber que na vida, quando ficamos em silêncio, não nos resta mais que aquele zunido infernal que parece vir do meio da cabeça para os ouvidos.

O sol não entrou pela janela porque deveria ter saído do meu coração - e mesmo sob a circunstância, não consigo deixar de ficar impressionado com a luz aprisionada -, porque deveria ser um presente.

Como último prêmio, vou guardar para sempre os cinco riscos vermelhos que ficaram no meu rosto. Em que apenas um deles ficou falho na base - respeitando a presença da aliança. Não consigo promover uma acusação sobre mim mesmo, quão mais atribuir culpa, responsabilidade ou, na pior das hipóteses, dar-lhe a razão. Não estou conseguindo mesmo pensar em nada, "- Juro, Consciência, dá um tempo!". E pior seria se neste momento eu estivesse tentando escrever um bilhete ou um texto, saberia o leitor que o estou enrolando... como se o fizesse acompanhar sessenta página para dizer que chupei uma laranja.

E se no dia de amanhã, para os seguintes, eu desaparecer: foi culpa das melhores oportunidades. Eu esperava uma história diferente. Uma em que, finalmente, eu poderia terminar glorificando um chute no traseiro (no caso o seu), mas não... tudo aconteceu como eu já havia contado. A história foi reprisada em um coração com bolhas de plástico, com muitas ainda para serem estouradas. Sente daí a mágoa que sinto daqui?

E se algum dia eu voltar, vai ser para lhe furtar o respeito. Mas farei com que tudo pareça o antes, até mesmo me abaixando até o chão - mas agora para encher a mão de terra e artificialmente encher-lhes os olhos com o dissabor daquilo que nos faz ter vontade de ir embora.

Não creio em um amor mais limpo que o meu. Eu não acreditaria no seu por perdão ou por retratação. Se nos houvesse um elo do típico - naquilo que se lê na doutrina de Direito - o objeto seria o tanto que você ainda gosta de mim.

MEU SORRISO SEM GRAÇA....

...e cheio de lantejoulas é um convite. E eu não ter me levantado para te cumprimentar também é um convite - o segundo, mas já tímido. E você aqui sentada, fora do seu lugar, também é um convite - mas não para mim, para o cara logo à nossa esquerda, que quer você de verdade.

Tecnicamente, estou encantado com suas roupas. Uma coisa que me agrada muito são os trajes alinhados, guardando contornos alinhados. Você fica bem do jeito que está. Linda. Da classe gramatical do melhor adjetivo. Mas nós só temos cinco minutos.

E se houver exceção a nós neste tempo, estampada no rosto das pessoas tensas à nossa volta, perceba a que a mudança do meio me tornou um rapaz jovem. Não preciso ser homem hoje. Quero ficar encantado só com a conversa. Melhor ainda se eu me fizer entender e ganhar sorrisos largos.

Por isso não quero negligentemente te desagradar, nem mesmo dizer coisas bobas e engraçadas sobre as pessoas ou sobre mim mesmo. Queria que entre nós estivesse uma mesa. Você está sorrindo com o que diz, e isso é bom.

Se no minuto final eu crescer repentinamente; se eu criar jogos de esconder; se eu te guiar acima e abaixo; é puro interesse. Pode se levantar e me deixar sozinho, envergonhado. Vou disfarçar olhando minhas mãos, que já estão juntas. E se mentalmente eu responder "- Não! Não! Não!" para todos os atos, perguntas e desvios, não me ouça.

Ainda no próximo minuto, te olhando daqui, quero me recuperar e dizer a última palavra e mostrar que o título é meu, apesar de o tê-lo desejado para você. E eu já disse. Boa sorte.

Mais de quatro horas se passaram e você saiu primeiro. Disse "- Tchau.". É por isso que amo infinitamente outra pessoa.

SE NA DESPEDIDA DO FINAL....

...da semana - que pareceu um mês inteiro - você não me encontrar na porta, ou mesmo na sala para fazer jus à cena, é porque eu já fui.

E não fique triste, porque não estou. Entenda-me no duplo sentido, pois foi assim que te ensinei sobre mim. Mas isso não significa que eu não volte ou não reapareça. Também não significa que não me importo, mas a diferença está no tempo que me importo. Mais ou menos trezentos metros da porta da sala.

E se fui rápido demais, é porque não queria me despedir com beijos e abraços. Não queria passar pelo constrangimento de dizer coisas que não penso ou não sinto. Não queria olhar sua cara desarrumada e penar com o mal hálito matinal - para você os dias podem ter sido de novela, mas para mim é a realidade do final de semana tradicional de sempre. O domingo foi chato, admita.

E aqui, já distante, penso no meu gerador de singularidade. Na condição que nos foi estabelecida ao acaso, como conta o passado. Se eu bem soubesse o carma e a necessidade de conviver com você esporádica e intermitentemente, eu não teria me aproximado do abismo. Não que eu esteja querendo repassar drama e dificuldades de qualquer peça teatral típica das quintas. Mas é certo que estou pensando só no risco. O meu, é claro. Nem sempre a viagem de negócios cola. E você cola. E isso é foda.

E aparentemente vou desaparecer. O problema é que mal pude concluir o pensamento que você já me achou. Maldito celular.

SE MUITO DOIDO ENCOSTEI....

...em você esta noite, minha querida, na vontade de rasgar-lhe a carne com tempero de roupa, não me desculpe: eu estava na plenitude da consciência. E por aí dizem que bêbado quem conta história, mas só sóbrio me lembro de toda putaria que fiz acontecer.

E apesar de tê-la conhecido na festa, no meio da dança e do estorvo da conversa - que atrapalhava o barulho da música - nada foi ao acaso. Eu já estava de olho em você desde a fila. Mas precisei de muito tempo para me decidir sobre o seu decote. Uns trinta segundos, no máximo.

E depois de superada a fase das alegações finais; de superada a fase dos empurres em porres finais; e eu superando o hálito dos copos que você nem mais poderia beber, vamos embora. Te levo longe com teu carro porque o meu não tem charme e nem espaço para mais um pé. E faço tipo gostoso. Ofendendo-a carinhosamente. Divirto-me com o filtro da bebida, que leva até a sua mente palavras deixando-as enroladas e incompreensíveis. Que da mesma maneira enganam qualquer cachorro que gosta de escutar palavras infantilizadas e cheias de bebezices.

E eu escolho o lugar e você paga. Inclusive meu corpo. E eu decido o ir e vir da festa como melhor me convir. Decido pelo banho e pela sujeira. Decido por me vestir e me limpar de você. Me decido pelo lugar a imprimir maior energia. E quando tredestino a frente pela traseira um uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuurro de vinte e três us soterra a brincadeira. E depois de enterrado o vivo, qualquer desmaiada acorda e livra-se solta. Mas eu nem fiz nada!

Tudo bem que a pé eu volto. E nem tanta é a vergonha porque já muito conhecido sou das moças do motel. Minha casa é um pouco longe da cidade e até lá conto melhor os detalhes de como foi hoje.

Se você notar, vai ver como foi picada toda essa estória. Mas façamos o seguinte: agora que estou mais calmo, foi assim que aconteceu...

MADRUGADA DE ONTEM DORMI....

...com outra mulher. Mais mulher, mais cabelo preto. Mais um monte de coisa, em um monte maior ainda de implicações. Não é coisa pra se fazer sempre. Mas é coisa para se fazer no em quando, já que de vez eu preciso de uma novidade do capeta.

Ah! Que saudade de morrer e matar no aperto penitenciário da de solteiro. De sofrer abraçado no meio espaço do resto da madrugada. E ficar acordado quando poderia estar dormindo sozinho no aconchego do lar sem enigma.

E a mais mulher de ontem me tomou como eu queria. Fez mágica vertical para compensar a falta de conforto. Deu-me prazer ao me deixar dar o dela. Até em pé. E que gostosa a recompensa do cansaço sem culpa para quem deitou querendo ficar agitado.

E se sujo estiverem os corpos pelas marcas ousadas - pelo meu arremesso nela e de dela os dentes em mim - do empenho, um banho e lavamos-nos todos. Até quem assiste irritadiço da janela.

E quanto mais me distancio do meu conjugo, mais me volto para o verdadeiro assanhamento. E no imputo da sorte, meu antigo par - a do atraso do cinema, a dos corredores de chocolate - volta para meus braços como se eu nem a conhecesse, e que bom.

E talvez eu tenha ido ao cinema. Talvez não tenha chegado atrasado. Talvez não tenha escolhido tão depressa uma mesa de escritório para fazer a cama. Talvez ela ainda não tivesse beijado ninguém. Talvez eu não tenha ficado emputecido com o passado fato à nossa tirada de roupas.

E por mais longe que posso fazer alcançar meu braço - aquele ainda não dormente - para cobrir qualquer seio ainda nu, não deixo de pensar em como estou satisfeito com a penúria de deixar ela dormir enquanto fico sozinho. Acompanhado apenas do priapismo sem cura que, não patológico, é um estorvo.

E essa mulher, de mais cabelo preto, de mais um monte de coisa, é cá bem-vinda. E se a novidade não for refletir sobre o por quê do meu reflexo satisfeito no espelho do teto, talvez uma mentira, bem cômoda e fatalmente verdadeira com o passar do tempo, se torne uma bela história para contar como fomos embora dali na manhã seguinte.

SE EU ESTIVER CERTO....

...sobre o seu presente, me perdoe: estive muito ausente esses dias todos. Mas não ausente de você, por favor. Ausente em você. Então não me perdoe. Mas saiba somente que não posso deixar de estar triste com tudo isso. Mas é muito divertido.

Quando passar pela sua cabeça que de você esqueci, se lembre que a única pessoa que procuro fora de mim é você mesma. Você sabe. Sem rodeios te chamo para dormir os vinte minutos antes do golpe de insônia que me atarda as costas. Eu me vou com um pouco de barulho, mas no meio da noite volto para a descoberta. A sua descoberta. A descoberta completa. Agora silenciosa, pra te tirar a roupa e o sério - se ocasionalmente você acordar.

E só o faça se for capaz de se lembrar do sonho, ou perco o tesão de fazer-me abstrato. Não te vejo completamente, dada a escassa luz por entre os vãos e vens das janelas que concentram o calor não fictício, mas que uso como combustível. Eu me sinto uma entidade. Sinto-me soberano dos campos da maciez; dono da terra de espuma e da terra de carne. Imagine-me como sonho, mas me sinta muito bem na fusão; no plante. Não abra os olhos, por favor, meu amor. Quero te ver assustada para logo poder abraçar e não deixar você escapar. Brinque comigo ficando quieta e mordendo as queixas. Quer ir comigo? Quer champanhe pelo salão, à baila da nossa dança? Jogue-me para o alto que busco nos céus de baunilha seu presente. E o seu ausente me trago de volta.

E se tudo terminar como começou, no escuro e nas flores de tecido, com ou sem os amontoados fartos das almofadas, finja que nada aconteceu e feche a porta semi-aberta do sono. Tenho ainda mais meia hora de insônia para refletir lá fora, na sacada, o por quê não consigo dormir. Também vou pensar em você. Leia minha mente e saiba o quão ruim é ganhar-te de costas quando volto. Mas daqui de cima você é tudo.

Amanhã, quando eu estiver esgotado, fique sentada todos os segundos das horas me olhando com pouco respeito porque às vezes quero me sentir o inimigo. E, se preciso, insurja na batalha com deslealdade e se aproveite dos meus cabelos.

Ao final do dia irei embora, mas diferentemente de como cheguei. Não que eu tenha estado todo esse tempo verdadeiramente triste, mas era preciso criar um conflito para fazer parecer o que não era e melhorar-nos um pouco. E voltarei todas as outras vezes para te querer mais. Pode ser um sentimento clichê, mas tem sempre um gosto bom.

SE CASUALMENTE VOCÊ ENCONTRAR....

...seu carinho predileto perdido, guarde-o bem. De preferência amarrado no chaveiro de casa. Pode ser no do carro, mas não aconselho. Primeiro, porque as chaves do carro também se perdem fácil, somem de vista. Desaparecem. É estranho, mas a maldade do ser inanimado é inata. Segundo, porque ao entrar em casa e fechar a porta, faça imediatamente o uso, para que não fique gasto.

E quem perde sabe o carinho que quer encontrar. Pode ser um abraço, um colo. Alguns perdem a xícara, o que é pior. Se acontece, ficam dias sem chá de chá, sem chá de pernas. Sem chá amargo, mas prioritário de se engolir. Ficam com a garganta seca e mãos trêmulas. Acham que é falta de café. E lá tomam todo o café. Acham que é cigarro. E lá mastigam todos os cigarros. Mas tudo é indigesto, menos a xícara. Perdão, o chá. Certo é, que sem o que faça beber, não tem acordo.

O gosto é de cada um, mas todos tomam iguais. Quase. Uns engolem mais rápido, outros babam. Mas é sempre igual. Mas nem sempre é bem servido. Também nem sempre bem adoçado. Se for adoçante, o provador sempre descobre, se ele é formiga de migalhas de açúcar. Para tanto, tem de ser quente. Muito quente. De queimar a língua e ferver a ponta dos dedos.

E se sensível for este carinho, será mais bem recebido às tapas. Quanto mais violento, mais louça se tem que lavar - e algumas vezes cansa lavar a mesma xícara com água de banheira e sabão de sofá. Sem falar que não se pode secar com lençóis, se um se veste dele. Talvez um outro, mas em segredo.

Não há muita classe em pousar o deguste sobre a mesa para bater papo. Se fosse chá das 17h não estaria sendo tomado às 3h da manhã no jardim com estacionamento particular. Mesmo que lá, com tantas almofadas e cortinas se pareça um lugar calmo para conversar, não é. Onde já se viu economizar esforços para desarrumar a cama? Onde já se viu preliminar em puxar a cadeira para se sentar a dois, um em cada uma?

Bem, talvez se as chaves do carro, e ele mesmo, entrassem na estória, tudo seria contado diferente. Exceto pela falta em servir-se bem em um local apropriado para ser tomado. Ou domado? Por isso escolho chaves de casa. Chego e me deito. Chamo e pergunto. Tiro a roupa e vou ao banheiro. Sirvo o brinde e apago a luz. Ligo a luz. Apago. Não tem ninguém aqui com roupa. A orelha vira boca para falar comigo. E ter que não ouvir é uma dádiva. A não ser outros pedidos. Viro-me e não durmo. Faço sala para quem dorme. Sirvo meu braço de travesseiro.

Pode esperar o chá da manhã, na cama, quem casualmente já encontrou e fez predileto.

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